06
jul2021
21h30
Até
10
jul2021
23h30

Lázaro, também ele sonhava com o Eldorado

Caldas da Rainha
Parque D. Carlos I
Teatro

Sinopse

TEATRO DA RAINHA DE REGRESSO AO PARQUE

Estar numa cidade é ser parte integrante do seu espaço, descobrir-lhe o potencial que motiva a criação, é ser uma força viva e dinâmica no desenvolvimento da própria cidade. Em 2017, o Teatro da Rainha descobriu um palco em potência no Largo da Copa. Aí se representou o Triunfo de São Martinho, de Gil Vicente, e lá se regressou, no ano seguinte, com A paz, de Aristófanes. Em 2019, lembrámo-nos de oferecer ao Parque D. Carlos I outros voos. Foi entre árvores centenárias que erguemos A Cidade dos Pássaros, de Bernard Chartreux. E tudo isto se concretizou envolvendo a comunidade, o património vivo da cidade. Por razões sobejamente conhecidas, 2020 fechou-nos em casa, isolou-nos, distanciou-nos. Chegou o momento de nos reaproximarmos.
O Teatro da Rainha está de regresso ao Parque D. Carlos I, num local novo e originalmente aproveitado para fins criativos. Junto às estufas, algures entre os Pavilhões do Hospital Termal e o estacionamento que dá para a Rua Rafael Bordalo Pinheiro, vislumbrámos o cenário ideal para ressuscitar Lázaro, também ele sonhava com o Eldorado. Encenada pela primeira vez por Fernando Mora Ramos em 1984, a primeira peça do dramaturgo e ensaísta francês Jean-Pierre Sarrazac, publicada em 1976, está de volta aos palcos e com sentido redobrado pela força das circunstâncias actuais. À época, ressoavam nas desventuras deste Lázaro os milhares que habitavam o bidonville como agora ressoam os que tentam chegar à Europa por um Mediterrâneo cercado de muralhas.
Baseando-se no Lazarillo de Tormes, clássico anónimo do picaresco espanhol do século XVI, que por cá vem conhecendo inúmeras e renovadas versões, a peça de Sarrazac que a escritora Regina Guimarães traduziu para o Teatro da Rainha é uma parábola da emigração. Nela se relata o infortúnio de um emigrante em busca do Eldorado, as Américas, mas usado e abusado por quantos vai encontrando pelo caminho. E são muitos aqueles com quem se cruza, e todos eles tentam tirar proveito da miséria uns dos outros. Uma comédia trágica, portanto, aberta a diversas interpretações e múltiplos significados, de um humor inquietante que funde o cómico no trágico derrubando os muros para que os géneros circulem livremente.
Afirma Sarrazac: «Muitas das minhas peças são parábolas ou têm um aspecto nitidamente parabólico. Esta predilecção pela parábola está porventura relacionada com a minha ligação a um certo teatro popular ou, como dizia Vitez, “elitista para todos”.» Lázaro, também ele sonhava com o Eldorado não é excepção. Antes pelo contrário, responde perfeitamente a essa ideia de um teatro sério ao alcance de todos, com uma tensão continuada entre o arcaico e a actualidade, tingida, tal como a vida, de momentos onde o riso inspira a lágrima, lances de génio praticados por maltrapilhos, nostalgia de um futuro por conquistar e muita vigarice, jogo de cintura, sobrevivência. «Propomos uma imagem sadia da miséria», como a dado momento se apregoa com cinismo indisfarçável. Um Lázaro vivo, este que o Teatro da Rainha levará à cena entre 6 e 10 de Julho no Parque D. Carlos I. No centro da cidade.

Ficha técnica

Texto | Jean-Pierre Sarrazac
Tradução
 | Regina Guimarães
Encenação | Fernando Mora Ramos
Cenografia | José Serrão
Desenho de Som | Francisco Leal
Desenho de Luz | António Anunciação

Interpretação | Carlos Batista, Marta Taveira, João Costa, Fábio CostaCibele MaçãsJosé Carlos FariaHenrique Fialho, Fernando Mora RamosNuno MachadoIsabel Lopes, Vítor Duarte, Fernando Rodrigues, Jorge Estreia, António Plácido, Mafalda Taveira e Manuel Gil